terça-feira, 30 de novembro de 2010

PERDÃO



Assumir um erro। Repudiá-lo e demonstrar arrependimento, de um lado, e ser capaz de afastar a sensação de injustiça causada por uma ofensa, do outro – eis a equação de uma das atitudes morais mais nobres e emocionalmente complexas já criadas pela civilização ocidental.


“Para as ofensas, a maior é o esquecimento. É no esquecimento que se igualam vingança e perdão.” Escreve o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) sobre Jó, o mais fervoroso protagonista do Velho Testamento.

Um dos mais belos textos bíblicos, o Livro de Jó conta como o mortal foi devastado pelos efeitos do que parecia ser a princípio uma simples aposta entre Deus e Satã. Para provar a Deus que toda a devoção a ele se devia às graças concedidas aos mortais. Satã propôs um experimento com Jó. Deus permitiria que. Passo a passo, Satã fosse tirando a riqueza, a saúde e, finalmente, o amor da família e o respeito dos amigos do seu fiel servidor. Jó então abandonaria sua fé. Pois o homem de fé perdeu sua fortuna, viu seu corpo ser coberto de chagas, um a um seus dez filhos morreram e ele se tornou alvo do escárnio e da humilhação por parte dos amigos. Jó, porém, perseverou na fé e esqueceu as provações. A mensagem dos céus foi passada (por ter muita fé, um homem pode se achar merecedor de fortuna, saúde e amor, mas isso nada vale se aos olhos de Deus ele é um pecador) e Jó, antes de recuperar tudo o que tinha em dobro, diz-se arrependido e pede perdão ao Senhor.

Mas não teria de ter sido o contrário?
Não deveria ter sido Deus a pedir perdão a Jó por tê-lo usado arbitrariamente para ganhar uma aposta com Satã? Aos nossos olhos imperfeitos, sim. Mas a extraordinária história bíblica é uma amostra apenas de como as religiões, mesmo valorizando entre alguma forma de reconciliação entre o ofendido e o ofensor, ficaram muito aquém de desenvolver o moderno conceito de perdão.

O perdão laico pressupõe uma transformação moral tanto do agressor como de quem foi agredido. Para haver perdão, é preciso de um lado arrependimento sincero e, do outro, disposição para apagar os ressentimentos.


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