terça-feira, 10 de agosto de 2010

O exibicionismo sexual no Twitter

Um site de vídeos se tornou a nova moda para quem quer tirar a roupa na internet. Por que isso representa um risco para os adolescentes


Na madrugada do domingo para a segunda-feira dia 26, dois adolescentes – um menino de 16 anos e uma menina de 14 – convocaram internautas acordados naquele momento para assistir a uma apresentação sexual ao vivo. A cena foi exibida no Twitcam, um site de transmissão de vídeos ligado ao Twitter. Durou dez minutos. A menina começou sentada no colo do garoto. Pelo fórum de debates do Twitcam, os internautas diziam o que o garoto deveria fazer com a garota. Ele respondia que transariam se a audiência chegasse a 20 mil espectadores. Quando chegou a 26 mil, a menina ficou apenas de calcinha e permitiu que o parceiro a tocasse intimamente. Só pararam quando ela reclamou de dor.

A repercussão do episódio foi tremenda. No mesmo dia, usando o Twitcam, os dois jovens tentaram se explicar. A exibição, disseram, era fruto de uma aposta num jogo de cartas on-line. Quem perdesse teria de se mostrar na internet. “Eu não forcei ela a nada”, disse o rapaz. “A gente é menor e não fez pedofilia nenhuma.” Na mesma segunda-feira, o delegado Emerson Wendt, da Delegacia de Repressão a Crimes Informáticos, identificou os dois adolescentes. “Recebemos denúncias até de conhecidos deles”, diz o delegado. Os dois são de Alvorada, município da região metropolitana de Porto Alegre. Jovens de classe média, tinham se conhecido havia um mês. Os pais de ambos foram chamados a prestar esclarecimentos na delegacia e liberados com o compromisso de se apresentar ao Ministério Público quando convocados. Em entrevista ao site de notícias G1, a mãe da jovem de 14 anos se mostrou surpresa com a atitude da filha: “Eu não sabia o que falar. Fiquei apavorada”, disse a mãe. “Tudo o que a gente conversa não adianta para nada.” A mãe puniu a garota com um castigo de um mês sem acesso à internet. Os adolescentes devem levar apenas uma advertência formal do juiz de menores. Mas quem assistiu ao vídeo ou o retransmitiu pode ter punição mais severa. Na quinta-feira, Wendt pediu a identificação do endereço de IP (o endereço do computador na internet) de três internautas que capturaram o vídeo e o colocaram no site de downloads 4shared. O delegado também pretende identificar os mais de 12 mil internautas que fizeram o download do vídeo. Se forem maiores de idade, poderão ser acusados de crime de pedofilia. Dá até seis anos de prisão.Segundo a advogada Patricia Peck, especialista em Direito Digital, tem crescido o número de casos como o dos adolescentes do Rio Grande do Sul. Pais desesperados procuram a advogada com o objetivo de “limpar” os rastros de vídeos desastrosos na internet. “Antigamente, as famílias podiam mudar de cidade”, diz Patricia. “Hoje, teriam de mudar de planeta.”

Por trás desse escândalo está uma nova moda entre os jovens internautas. No mundo inteiro. São os sites que transmitem vídeos ao vivo na internet. O mais popular deles é o Twitcam, criado no final do ano passado pela companhia americana Live Streaming. Qualquer pessoa com um computador, uma câmera e uma conexão de internet tem poder para transmitir imagens para milhões de pessoas, simultaneamente. Muita gente usa o serviço apenas para se comunicar: pais para mostrar seus filhos a parentes que estão longe ou artistas que querem interagir com seus fãs. Mas, nos últimos meses, tem se tornado frequente o uso desses sites para a difusão de material erótico ou pornográfico.

A curitibana J., de 20 anos, encarna a personagem Biatrix no Twitter. Em seu perfil, a estudante de publicidade provoca homens e mulheres com comentários sexuais. Recentemente, J. resolveu fazer exibições na rede. Disse a um amigo que, se atingisse determinada marca de audiência no Twitcam, rasgaria a blusa. Em poucos minutos, 4 mil pessoas estavam pedindo para que ela tirasse a roupa. Sem mostrar o rosto, J. exibiu os seios durante alguns minutos e viu seu número de seguidores no Twitter quadruplicar. “Já tive experiências no Skype e no MSN”, disse J. a ÉPOCA. “Sempre imagino que só uma pessoa está vendo. Curto os comentários.” Ela diz ter noção dos riscos que corre. Tirou todas as suas fotos das redes sociais e diz que apenas seus amigos mais próximos sabem da personagem Biatrix: “Morro de medo de ser descoberta, mas tomei precauções para que isso não aconteça”.

Para a escritora britânica Natasha Walter, autora do livro Living dolls (Bonecas vivas, sem tradução no Brasil), a internet alterou a forma como os jovens percebem e praticam sexo. Antigamente, diz ela, crianças e adolescentes descobriam a vida sexual aos poucos, com experiências íntimas. Agora, crescem vendo adultos fazendo sexo explícito – e frequentemente brutal – na internet. Quando chega sua vez de experimentar, estão com a cabeça cheia de noções fantasiosas ou perversas sobre o que se espera deles. Os homens, diz Natasha, têm dificuldade para estabelecer uma relação íntima com a mulher, enquanto elas se tornam obcecadas pelo corpo, e o ato sexual vira apenas uma exibição. “Elas ficam com a ideia de que estão em meio a uma performance, dando um show”, afirma a escritora.

Por enquanto, não há leis ou recursos técnicos que permitam brecar o exibicionismo e a pornografia adolescentes na internet. A única solução apontada pelos especialistas é a educação. Os jovens desenvolveram enormes habilidades com a internet, agora terão de aprender também noções de responsabilidade e ética. “Com 13 ou 14 anos, os adolescentes podem fazer o que quiserem na internet”, diz Natasha Walters. “Não vamos conseguir censurá-los, mas podemos ajudá-los a entender como evitar a exposição excessiva.” Esses cuidados não evitarão que jovens cometam atos impensados. Mas são a única alternativa.




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